Teatro Completo
 
 Teatro Completo 
   
 
 

Commedia Dell’arte

Nascida na Itália, a Commedia Dell’arte trouxe de volta um pouco da pantomima, do ridículo e da vulgaridade que as comédias primitivas gregas expunham após as Tragédias Gregas no tempo do Império Romano. Porém, a diferença estava nos trajes carnavalescos, nos temas abordados, na alegria e euforia que dominavam os palcos do século XVI. Os reis e rainhas não tinham mais o seu próprio menestrel, pois preferiam se dirigir aos simples teatros com toda a pompa de uma majestade para assistir junto com os seus súditos às engraçadas peças teatrais que buscavam abordar os temas mais surpreendentes. Esse gênero pedia muitíssimo de seu intérprete, pois esse tinha que seguir a risca o roteiro, porém, preocupando-se com o público, que pagava o ingresso somente para rir. Caso percebesse que o público não estava achando engraçado o roteiro original, podia improvisar caso tivesse alguma idéia realmente engraçada.
As mulheres eram proibidas de atuarem no palco, de forma que os homens é que faziam os papeis femininos. Para ficar mais real, os homens efeminados eram convidados para o papel das donzelas, o que deixava as cenas ainda mais engraçadas para o público. Os atores se engajavam dentro de uma companhia de teatro e tornavam-se famosos por um estilo único de personagem. Assim que um ator se especializava em interpretar um tipo de personagem, só fazia esse tipo até o final de sua carreira. O teatro veneziano trazia sempre os mesmos tipos de personagem em suas comédias: o Pantaleão, o Arlequim, o Criado, o Doutor, o Capitão, a Colombina, a Noiva, a Ama, o Pai da Noiva e o Herói, constituindo sempre os mesmos tipos de roteiro. Normalmente os roteiros da Commedia Dell’arte tratavam de contar a história de dois namorados que lutavam contra a negação dos pais, enfrentando assim uma série de problemas para se casarem. Foi na Commedia Dell’arte que o inglês William Shakespeare (1564 – 1616) buscou inspiração para seus espetáculos teatrais, pois, apesar do sucesso das comédias, os dramaturgos tinham vontade de alçar vôos bem maiores, escrevendo textos com temas mais profundo, com uma linguagem mais bem formulada e não vulgar. Shakespeare, certo da necessidade de elevar o nível das peças apresentadas, em plena era da Commedia Dell’arte, teve a coragem de utilizar os temas esdrúxulos e ridicularizados na comédia em novas abordagens, com textos ricos, poéticos e (acreditem!) dramáticos. Foi o caso do espetáculo Romeu e Julieta, que, seguindo o tema abordado pela maioria das comédias (guerra entre duas famílias e um amor impossível), foi apresentado ao público com um forte teor dramático, causando furor na época, por causa das belezas poéticas e da concepção tocante, que agradou até mesmo Sua Majestade.
Porém, a Commedia Dell’arte teve o papel fundamental dentro da sociedade de desmistificar o teatro, que durante séculos seguiu um padrão extremamente opressor e paradigmático, abrindo as portas para uma nova forma de dramaturgia, sem os dogmas que, durante muito tempo, impossibilitaram a criação livre de dramaturgos e encenadores. A Commedia Dell’arte serviu de inspiração para autores como Carlo Goldoni (1707 – 1793), autor de “Mirandolina”, que, entre outros notáveis, ajudou a criar a concepção da Comédia de Costumes, um estilo realista de comédia, mais responsável e mais restrito no que se diz respeito ao uso da improvisação. No Brasil, a comédia de costumes tem em Martins Pena, autor de “O Noviço” e “Os Três Médicos”, e França Júnior (1838 – 1890), autor de “Os Tipos da Atualidade” e “Como se Fazia um Deputado” os pontífices desse gênero, que, temperado com muita ironia e caricatura, tornou-se tradição no país no final do século XIX.
A Commedia Dell’arte também é vista como a percursora de diversas vertentes de teatro do povo, que culminaram no mito Shaekespeare, cujas comédias (como “Alegres Comadres de Windsor”) fazem sucesso até hoje.

Renascença na Inglaterra

Com a derrocada do teatro religioso (exceto na Espanha e Portugal), houve uma procura maior por parte das elites pelo texto dramático. Willian Shakespeare difundiu porém uma literatura voltada ao público popular, abordando temas diversos, mantendo ainda a configuração teatral medieval, porém reciclando o conteúdo de seus espetáculos. Essa tendência foi adquirida graças ao momento histórico da Inglaterra, sua política e seu povo.
Nessa época a Inglaterra, governada pela rainha Elizabeth I (1558 – 1603), tinha uma das melhores economia do mundo e isso inevitavelmente se refletia na educação e no desenvolvimento cultural. Os jovens escritores da época se aventuravam a apresentar suas peças nos teatros de Londres recém construídos, entre eles The Globe, The Theatre e The Rose, cujas estruturas eram bem peculiares: feitos para receber Sua Majestade e um número vasto de pessoas.
O teatro renascentista sentia o peso da quebra com a religiosidade. Os atores e diretores eram protegidos por pessoas de alto escalão na corte e da nobreza, que de um jeito ou de outro permitiam a continuidade das apresentações, de forma que, por certo período, as peças ocorreram diariamente sem problema algum. Entre outros temas polêmicos, Shakespeare escreveu Hamlet, cuja trama mostra um jovem príncipe da Dinamarca em dúvida se prefere o conforto tangente do poder ou se opta pelos riscos de uma grande aventura. Indeciso, ele se indaga: “Ser ou não ser, eis a questão”. Em Romeu e Julieta, o autor desafia normas sociais que ditavam regras para o casamento, provando que o amor deve ser um sentimento ministrado de maneira individualista. Estudiosos dizem que se por um acaso houvesse perda total dos documentos que falam a respeito da raça humana, bastaria as peças oriundas desse poeta magistral para descrever o homem. Após a morte de Shakespeare, os teatros ingleses fecharam as suas portas por causa da eterna guerra dos puritanos, que declaravam-se contra o teatro, afirmando ser um objeto trevoso do demônio. Os teatros só reabririam as portas após vinte anos, apresentando peças de George Eterege (1634 – 1691) e John Dryden (1631 – 1700).

Classicismo

Enquanto em Londres o teatro se revolucionava, alguns dramaturgos do Classicismo Francês disparavam sérias críticas a Shakespeare, por ignorar a Poética de Aristóteles. As unidades de tempo e espaço eram fundamentais na concepção dos franceses e o poeta inglês parecia desprezar esses elementos da tese aristotélica. Tendo o Rei Sol Luiz XIV como grande incentivador, os pensadores da Academia Francesa buscaram seguir de maneira fidedigna às concepções aristotélicas, mostrando-se porém extremamente pernósticos em relação às obras escritas, simplesmente por não possuírem o grande vigor trágico que os atenienses possuíam.
Porém o teatro francês não deixou de brilhar. Os autores Corneille (1606 – 1684), Racine e outros, obtiveram salvo-conduto dos críticos. Enquanto na Inglaterra o povo mais humilde lotava os teatros; na França, os teatros recebiam a nobreza francesa, com as roupas chiques, entradas triunfais e perucas enormes que demonstravam o momento absolutista. Durante os doze últimos anos de sua vida, Jean Baptiste Molière (1622 – 1673) foi o artista mais aclamado por Luiz XIV, o que valeu a Molière o prestígio da corte de Versalhes, mesmo sendo um artista da classe média. Molière em seus textos não ia de encontro com o autoritarismo, de forma que logo conseguiu seu espaço nos chiques salões da corte e nos teatros. Porém Molière era um crítico que colocou em xeque alguns conceitos fortemente edificados da época, como em “O Misantropo”, onde faz fortes críticas à sociedade. Em “O Tartufo”, Molière mexe com os brios dos clérigos, causando certo descontentamento por parte da igreja. Outras peças em que o dramaturgo condena sua sociedade são “Don Juan” e “O Burguês Fidalgo”.
Com a burguesia em alta, mantendo os cofres dos estados europeus, foi inevitável um aumento de peças teatrais voltadas para esse tipo de público. Assim, os temas das histórias apresentados nos palcos de Inglaterra, França, Itália e Alemanha eram todos constituídos ao redor do protagonista (o herói) que normalmente expunha a visão do homem perfeito: rico, valente, com um bom negócio, uma espada e uma boa mulher (ou seja: burguês!). Pelo teatro alemão, quem respondia por tragédias políticas extremamente burguesas era o genial Friedrich Schiller (1759 – 1805).
Entre os principais dramaturgos desta época está o famoso Denis Diderot, que, durante o Iluminismo, criou vários personagens influenciados por seu meio, de sua vivência, de sua sociedade. Diderot criou uma das primeiras teorias para interpretação, afirmando em seu ensaio Paradoxo Sobre Comediante (1830) que um grande intérprete necessita apenas de um autocontrole para repassar para o público emoções e sentimentos que não sente. Para Diderot, interpretação é igual a sensibilidade. Essa teoria sobre interpretação do ator veio, de certa forma, cobrir um vazio deixado por Aristóteles e Quintiliano (40? – 96), que, por sua vez, afirmava em seus ensaios sobre dramaturgia que “o ator comove o espectador, porque comove a si mesmo em primeiro lugar”.
Nessa época é que surgiu nos contextos teatrais o famoso herói que não perde uma única batalha, que sempre busca uma saída inteligente e bem articulada para se desvencilhar dos perigos eminentes, sempre se saindo muito bem. Porém a linguagem utilizada nos espetáculos dessa época era extremamente hermética e intelectualizada, de forma que houve um distanciamento do teatro com as massas. As diferenças sociais na França eram notáveis: com palácios incríveis de um lado e casebres horrendos de outro, pompa e gracejos de um lado, fome e miséria de outro. A distribuição de renda na França nessa época era bem desigual, de modo que 3% da população obtinha 55% das terras, enquanto o resto do povo, os Sans-cullotes (formados por trabalhadores, isso é, 97% da população) tinha apenas 45% das terras do estado. Para comer, ou o trabalhador se tornava escravo no comércio ou ia para o exército, que demandava de 33% das riquezas do estado. Aquele que reclamava ou tentava algo contra os soldados do rei era julgado sumariamente e levado para a odiada Bastilha, uma prisão de segurança máxima que era símbolo da opressão francesa.
Essa realidade culminou na Revolução Francesa (1789 – 1816), que levou o partido Jacobino, liderado pelo genial Robespierre ao poder da frança. O rei Luiz XVI foi preso junto com sua esposa, a malfadada Maria Antonieta, e depois foi executado na guilhotina. Essa revolução iria durar pouco mais de quinze anos, até a era Napoleônica e o começo do Naturalismo na França, que substituiu o classicismo e pernóstico heroísmo burguês por uma forma menos elitista, mais conceptual e mais satisfatória de se fazer arte.

Naturalismo e Realismo

O naturalismo Francês logo influenciou o resto da Europa, possibilitando o surgimento de grandes nomes do teatro mundial. O realismo francês teve início após a encenação de “A Dama das Camélias” (1852), de Alexandre Dumas Filho. Essa peça conta a história de uma cortesã que é regenerada pelo amor, dando ao público a constatação de um mundo real, observado, sem fantasiosas e lúdicas vivências, e sim, do dia a dia que explica o comportamento dos personagens apresentados. A concepção realista de que o homem é fruto do meio começou a ser explorada no teatro francês e logo ganhou o mundo. Um dos mais aclamados artistas dessa época é o polêmico Marquês de Sade, que, com uma temática picante e extremamente ousada, rebelou-se contra os paradigmas sociais da burguesia francesa, tornando-se um sério problema para a corte do imperador, que mandou prendê-lo num sanatório para não mais propagar suas magistrais e insanas obras. O sueco August Strindberg (1849 – 1912) foi autor dos primeiros dramas desse novo gênero, entre eles: “Senhorita Júlia” e “O Pai” . Esse autor também escreveu outros clássicos, porém adotando outros estilos literários: “O Sonho” é uma peça expressionista e “O Caminho de Damasco” tem um estilo simbolista. Na Rússia, surgia Nicollai Gógol (1809 – 1852), que foi substituído à altura por Anton Tchekhov (1860 – 1904), médico e dramaturgo que tinha em outro naturalista, o seu compatriota Dimitre Grigorovitch, um famoso romancista, sua fonte de inspiração e de reconhecimento. Em uma carta, Dimitre diz ao ainda jovem Tchekhov: “... desde que li seu primeiro conto na Gazeta de Petersburgo, fiquei surpreendido pelos sinais de uma originalidade bem particular, pela verdade das personagens e pelas descrições da natureza”. Tchekhov escreveu pérolas como “A Estepe”, “Tio Vânia”, “As Três Irmãs”, entre outros.
No fim do século XIX, surgiu a concepção do ator personalista, isso é, o ator que representa a força dramática do espetáculo teatral. Assim, as obras teatrais começaram a correr o mundo, tendo como grande objeto de marketing a fama e a credulidade de grandes estrelas, como o mito Sarah Bernhardt na frança e o ator romântico João Caetano (1808 – 1863) no Brasil. Foi no começo do século XX que o diretor começou a ser visto como o coordenador geral do espetáculo, cabendo a ele a supervisão dos atores, dos elementos cênicos, a escolha da peça a ser encenada e seu público alvo. A função do diretor é manter o equilíbrio de todos os elementos cênicos, preocupando-se com o ritmo do espetáculo, esclarecendo suas concepções a respeito da peça teatral e a forma de se abordar o tema.
E foi à partir das concepções inovadoras de Émile Zola (1840 – 1902), que propôs a exploração da realidade nos textos artísticos, que surgiram no cenário mundial vários teatrólogos que, buscavam preencher os vazios deixados por Aristóteles em sua Poética. Dessa forma, nasceram várias teses teatrais que se propunham a criticar, analisar a sociedade pelo viés dramático e expor para o público não apenas uma peça de teatro, mas uma obra psicológica, filosófica, que buscavam elaborar um conhecimento científico a respeito da realidade. O norueguês Henrik Ibsen (1828 – 1906), inspirado na filosofia naturalista foi quem propôs pela primeira vez que certos traços realistas fossem inseridos nos teatro da época. Nicolai Gógol propôs o realismo nas concepções teatrais russas, sendo que essa prerrogativa foi aceita por Tchekhov trinta anos após a morte de Gógol. Foi nos Estados Unidos, porém, que o Realismo viveu seus momentos áureos, com dramaturgos geniais, como Tennessee Williams e Arthur Miller, que condicionavam a cultura americana e o cotidiano de sua gente ao Realismo crítico. No Brasil, o maior defensor do realismo foi Machado de Assis, que, aos vinte anos de idade, escrevendo num jornal de grande circulação do Rio de Janeiro lançou “Idéias Sobre Teatro”, onde criticava abertamente o Romantismo e referia-se ao Realismo com grande admiração, defendendo um encontro maior da massa com o teatro, argumentando que o teatro não deveria ser somente um objeto de entretenimento e sim um local para ampla discussão a respeito das questões sociais do país: “O teatro é para o povo o que o Coro era para o antigo teatro grego, uma iniciativa de moral e civilização”, elucidou o escritor.
no Brasil, o Realismo foi muito bem representado por José de Alencar com “O Demônio Familiar” e “As Asas de um Anjo”, Joaquim Manuel de Macedo com “Luxo e Vaidade” e Pinheiro Guimarães com “História de uma Moça Rica”. Esse gênero resgatou a razão dentro do processo naturalista, endossando que o homem é fruto de seu meio. O detalhe é fundamental nas concepções realistas, além da visão do homem como um ser comum, ou seja, parte da natureza. A crítica é uma marca das obras realistas, que abordam os temas de maneira sempre objetiva, buscando ao máximo elucidar o receptor. O Realismo, dentro de seu contexto histórico, rebateu as conotações românticas, que propunham a super valorização do herói, do índio e do homem mitológico, além de refutar o teocentrismo barroco que propunha um cultismo cego em relação à religiosidade. O Realismo porém seria desnudado no auge do modernismo, que trouxe no Brasil uma visão mais democratizada de sua gente, quebrando com os padrões estéticos europeus característicos no Realismo. Os dramaturgos realistas brasileiros buscavam compreender sua burguesia à partir de seus atos, revelando mazelas como prostituição, cobiça e traição, com temáticas moralistas, que procuravam ditar regras de bons costumes para as tradicionais famílias no país.
O realismo brasileiro foi intensamente influenciado pelo realismo francês, o que acarretou em duas idas de Sarah Bernhardt ao país. O teatro realista francês era composto por um grupo seleto de dramaturgos que buscavam descrever a vida nas ruas de Paris e buscar soluções para os problemas existentes, como a prostituição, tema abordado em “Les Filles de Marbre” (“As Mulheres de Mármore”), de Théodore Barrière e Lambert Thiboust, peça que busca racionalizar a vida social do país, além de sugerir um caminho considerado ideal para o combate do lenocínio. Desses mesmos autores, as famosas peças “A Herança do Sr. Plumet” e “Os Hipócritas” estrearam no Rio de Janeiro em 1855, causando grande furor por parte do público, com o texto traduzido para o português. Nessa mesma década, passaram pelos teatros do Rio ainda peças de Feuillet, como “Dalila” e de Augier, como “As Leoas Pobres”. Ziembinski, que muito contribuiu para o teatro brasileiro, ficou famoso por adequar o realismo em seus espetáculos expressionistas. Sobre Ziembinski, Décio de Almeida Prado elucidou, após ter assistido a peça Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, montada pelo famoso diretor : “As cenas desenroladas no plano da alucinação são jogadas num estilo francamente expressionista, que viola deliberadamente a realidade, para conseguir maior efeito plástico e dramático, em contraste com as cenas de memória, já mais próximas do quotidiano, e, ainda mais, com as cenas no plano da realidade, que chegam até o naturalismo perfeito...”

 Bem Vindos ao Teatro Completo 

 Introdução, a Grécia Antiga e a 1º Estética da Arte Dramática 

 Concepção de comédia, o teatro religioso e o nascimento da renas 

 A commedia dell'arte, renascença na Inglaterra, classicismo, 

 Teatro Livre, Stanislavski e Brecht 

 Teatro Moderno, Teatro da Crueldade, Teatro do Absurdo 

 Teatro Contemporâneo 

 Bibliografia 

 Peça O HIPPIE 

 Monólogos dramáticos 

 Esquete Teatral 

 Perguntas frequentes, dúvidas e sugestões 

 Formulário